quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O ALEMÃO QUE DESBRAVOU O BRASIL

Conheça Georg Langsdorff, que comandou a primeira expedição pelo interior do nosso país.

POR: Bruna Ventura, Instituto Ciência Hoje/RJ


O alemão Georg Langsdorff viajou pelo interior do Brasil entre 1821 e 1829.

Você adora conhecer bichos e plantas exóticos? Gosta de viajar para lugares novos? Curte ver como as pessoas vivem das mais variadas formas? Pois foi essa curiosidade pelo diferente que moveu o ser humano ao longo da história e permitiu que ele descobrisse o que havia além de sua cidade, de seu país e até mesmo do seu continente. Foi também o que trouxe o alemão Georg Heinrich von Langsdorff ao Brasil.

Destemido, corajoso e com o desejo de aprender mais sobre o desconhecido, Langsdorff comandou uma grande expedição, que teve início em 1821, em nosso país. Médico de formação, esse alemão também era o que podemos chamar de naturalista. Na época em que ele viveu, entre 1774 e 1852, esse ofício era parecido com o que nós entendemos hoje por cientista ou pesquisador.

No Brasil, porém, Langsdorff não se contentou em ficar no litoral, onde os portugueses já haviam se fixado desde o descobrimento do país, em 1500. Ele queria ir além: conhecer o interior do Brasil, os índios, as espécies e especiarias nunca antes vistas. Para você ter uma ideia, o naturalista pretendia chegar até a Amazônia. A aventura não seria fácil, mas ele estava bem preparado: comandava um barco que levava um botânico, um zoólogo, um astrônomo, dois guias, três artistas que registravam e catalogavam tudo o que viam, além de empregados, caçadores e um piloto experiente.

Mas por que Langsdorff escolheu logo o Brasil, entre tantos outros países distantes do seu para desvendar? Acontece que o naturalista já havia participado de outra expedição, uma viagem de volta ao mundo, iniciada em 1802. Nessa aventura, ele conheceu Florianópolis, uma ilha de Santa Catarina, ao sul do Brasil. Depois disso, foi morar na Rússia. Lá, foi nomeado para a função de cônsul-geral e enviado ao Rio de Janeiro em 1813. Com isso, Langsdorff estava de volta às nossas terras e, dessa vez, para ficar! Em 1821, ele começaria a viagem, partindo do Rio de Janeiro até Minas Gerais e, de lá, seguindo para São Paulo, com parada final em Belém do Pará.

Registros e dificuldades da viagem

Na época, não havia câmeras fotográficas nem filmadoras. Apesar disso, registros da viagem não faltam. Em expedições como essa, exemplares da flora e da fauna eram empalhados para poderem ser guardados e artistas eram contratados para desenhar as paisagens e populações nativas, bichos e plantas. Com Langsdorff, por exemplo, viajaram os artistas Johann Moritz Rugendas, Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence.


Índios visitam os artistas europeus na casa onde eles estavam hospedados (imagem: Adrien-Aimée Taunay, dezembro de 1827).

No longo percurso feito por rios, os viajantes se depararam com correntezas assustadoras e cachoeiras. Foi na travessia do rio Guaporé, que banha os estados de Mato Grosso e Rondônia, por exemplo, que a equipe chorou a perda do desenhista Aimé-Adrien Taunay, que não conseguiu superar a força das águas e se afogou. Muitas vezes a tripulação também teve que descer do barco e empurrá-lo entre as pedras onde era impossível navegar. Isso sem falar da dificuldade de carregar as obras dos artistas, os animais empalhados e as espécies botânicas, além dos problemas enfrentados quando a expedição chegou ao norte do país.

Quase toda a tripulação sofreu com as doenças tropicais e com o calor insuportável, sendo que muitos acabaram morrendo. A esposa de Langsdorff chegou a acompanhar a expedição, era a única mulher do barco, mas engravidou e precisou retornar ao Rio de Janeiro para ter seu bebê. Além disso, Langsdorff contraiu uma doença da qual nunca se curaria completamente. Hoje, muitos estudiosos suspeitam de que tenha sido malária.

Todo este esforço, no entanto, valeu a pena. Quinze em cada 100 espécies da flora brasileira foram determinadas a partir do acervo desta viagem, que terminou em 1829. Ao retornar à Europa em 1830, onde permaneceu até morrer em 29 de junho de 1852, Langsdorff talvez não pudesse imaginar, mas contribuiu para que a gente pudesse conhecer, hoje, um pouquinho do Brasil de antigamente!


Durante a viagem feita por Georg Langsdorff e sua equipe, mais de mil desenhos e aquarelas foram produzidos. Aqui vemos a aldeia dos Apiaká, onde os costumes não-indígenas ainda não haviam chegado (Hercules Florence, abril de 1828).

Os buritis, palmeiras encontradas no cerrado brasileiro, foram retratados pelos artistas que participaram da expedição e que tinham a missão de registrar a fauna, a flora e os povos do nosso país (Adrien-Aimée Taunay, junho de 1827).

O canto noturno dos índios Bororo é tema de uma das 368 obras que foram encontradas apenas em 1930 nos porões do museu do jardim botânico da Rússia (Adrien-Aimée Taunay, dezembro de 1827).

Os artistas que participaram da Expedição Langsdorff retrataram diferentes tipos humanos, como esta menina, filha de uma mestiça e de um branco (Adrien-Aimée Taunay, maio de 1827).

A diversidade de plantas brasileiras fascinou os viajantes: cerca de cactos e bananeiras em meio à floresta (Adrien-Aimée Taunay, maio de 1827).

Mulheres lavam suas vestes e preparam alimentos às margens de um rio. Esta é uma das imagens apresentadas na mostra Expedição Langsdorff, em cartaz no Rio de Janeiro (Adrien-Aimée Taunay, junho de 1827).

Vista do vale denominado Laranjeiras e do Morro do Corcovado (Johann Moritz Rugendas, março de 1822 e maio de 1824).

O Pará foi o destino final da viagem conduzida por Langsdorff. Veja a cidade de Santarém, localizada nesse estado, e as águas do rio Tapajós (Hercules Florence, agosto de 1828).

Repare na pintura e nos enfeites usados pela mulher e pela criança Manduruku, que viviam às margens do rio Tapajós, no Pará (Hercules Florence, junho de 1828).


Confiram o vídeo da expedição liderada por Langsdorff, e que é tema de uma mostra em cartaz no Rio de Janeiro aquiVocê também podem escutar o áudio de trechos do diário de viagem de Langsdorff no mesmo endereço.